segunda-feira, 5 de julho de 2010

Subida nocturna à Torre da Serra da Estrela

DESCRIÇÃO 03.07.2010
00:30h - Arranque da Câmara Municipal da Covilhã
02:40h - Paragem para descanso nas Penhas da Saúde
04:15h - Chegada à Torre da Serra da Estrela
05:45h - Arranque para a descida atá à Covilhã
06:20h - Observação do nascer-do-sol
07:00h - Chegada à Covilhã

Total da noite: 51km em 04:25h
Total do projecto: 1636 km desde 22.05.2010

RELATO PESSOAL
A maior aventura alguma vez realizada por mim de bicicleta: a subida nocturna, em autonomia e a solo, à Torre da Serra da Estrela. Apenas eu, a "Poderosa", e a força assustadora do ambiente nocturno da serra mais alta de Portugal Continental.

- A meio da subida

Numa escuridão quase total, apenas irrompida por alguma luz da lua em quarto minguante, avista-se a diferença de escuro entre a linha de horizonte da serra e o céu nocturno e estrelado. Três ambientes completamente diferentes provocam sensações disitintas. Até às Penhas da Saúde, a mata densa abunda com os pinheiros bravos a dominar a paisagem escura. Daí para cima, a vegetação arbórea domina até aos 1600m de altitude. Depois, apenas rocha. Maciços gigantestos e penhascos de granito criam formas fantasmagóricas e paredes quase verticais no horizonte próximo.

- Descanso de 15 minutos nas Penhas da Saúde, aos 1450 metros de altitude e após 13 km percorridos, num dos poucos "pontos de luz" durante o percurso.

A única iluminação que utilizei foi a da bicicleta, alimentada pela electricidade produzida no dínamo montado na roda dianteira, mas que a 6 km/h apenas ilumina o suficente para ver as guias da estrada até 20 metros, e os elementos deflectores de luz da sinalização vertical. O resto, tudo o resto, é uma incógnica. Pouco ou nada vejo, apenas oiço, cheiro e sinto. Suspeito que haverá algo mais para além do que os olhos transmitem ao cérebro. Mas só com a luz do dia me é revelado todo o esplendor da Serra e aquilo que conquistei: 1991 metros de altitude, pedalados com inclinações médias a rondar os 10%. A temperatura na Covilhã rondava os 20ºC quando arranquei. Nas Penhas da Saúde, a 1450m de altitude, já baixara para 15ºC. Na Torre, o meu termómetro registava 10ªC. Frio, muito frio, a pedir um café bem quente.

- No cruzamento para Manteigas

- Lentamente, a altitude ía aumentando, pedalada a pedalada

Uma boa surpresa foram as fontes de água natural que encontrei pelo caminho. Água fresca, e de uma leveza fora do comum, revigoravam-me a cada golo. Atestei a garrafa por duas vezes, ao longo da subida.

- Uma das raras vezes em que preferia ficar na ignorância. 10% de inclinação significa que por cada 100 metros de distância pedalados, sobe-se 10 metros em altitude. A estrada para a Serra da Estrela é uma grande rampa, com quase 25 km de comprimento, desde a zona baixa da Covilhã.

- Tunel escavado na rocha

- A luz da foto engana, pois é resultado do flash da câmara. A minha visibilidade era bem inferior

- Já está quase ....

- A menos de 1000m de distância da Torre

- Já na Torre, após conquistar os 1991 metros de altitude, e dar uma volta a grande velocidade na rotunda da Torre, a primeira superfície plana que apanhei em 25km

Para surpresa minha, não estava tão cansado como seria de esperar. Ainda dei uma volta à rotunda da Torre, a grande velocidade, para celebrar a chegada ao topo. Presumo que estes mais de 1500km que já percorri desde que saí de Lisboa, pelo Litoral Alentejano, Sul do Algarve, Alentejo Interior e Baira Baixa me tenham dado a forma física necessária para realizar esta subida. Isso, o talvez o facto de, por ter pedalado de noite, não conseguir ver o caminho que tinha à frente. Não tinha noção da dimensão das subidas, nem dos maciços que ainda tinha de vencer. Apenas via 20m à minha frente, iluminados pela luz da "Poderosa"

- Com o frio a apertar lá em cima, um cafezinho sabia mesmo bem.

Utilizando um pequeno fogão de campanha alimentado por acendalhas, oferecido pelo Jorge Gambutas, militar do Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz, tentei aquecer o café. Infelizmente, o vento era demasiado, e nem mesmo com caixotes a servir de proteção consegui colocar a água a ferver. Fica a tentativa falhada e a vontade de experimentar de novo.

Felizmente, o Carlos Reis e o Joel vieram ter comigo à Torre ... de carro, trazendo uns óptimos (e acabados de fazer) croissants de chocolate do Paúl. Ficámos no carro a aquecer, durante algum tempo, e a saborear os bolos da terra.

- Já com alguma luz, e com o equipamento de descida colocado (óculos e luvas), emprestado pelo Carlos Alves, grande adepto do downhill, preparei-me para a descida. 25 km de pura aceleração e adrenalina estavam para vir.

- Início da descida, já com o sol a querer aparecer no horizonte

- A última foto, no topo de Portugal Continental

- Já na descida, os vales e o skyline da Serra da Estrela 

- Lagoa artificial do Covão do Ferro

- A descida foi feita com velocidades médias entre os 50 e os 70 km/h. Excepto nas curvas apertadas, onde reduzia para 30 km/h.

A Serra está cheia de penhascos, que a pique criam recortes assustadores na berma da estrada. Um pequeno erro, uma pequena distracção, uma pequena avaria mecânica, poderiam atirar-me estrada fora. Mas que diabo ... quem não arrisca não petisca. E desta vez coloquei de lado todos os cuidados de segurança com que pedalo na estrada, para viver a 70 km/h e com uma descarga de adrenalina a cada metro que percorria. Foi do outro mundo, a carga energética que me percorreu o corpo durante uma hora de descida, da cota 1991m à cota 600m, na Covilhã. Sem dúvida, uma experiência a repetir no futuro.

- Outra foto, captada em movimento

- O Nascer-do-Sol, já em plena descida

- Nascer-do-Sol na Serra da Estrela

- A meio da descida, com o Sol a oferecer-nos os primeiros raios de luz.

- Já próximo da covilhã, com temperaturas mais amenas, eu e o meu recente amigo Carlos Alves, que me acompanhou na descida vertiginosa, pelas curvas da Serra da Estrela, com o seu automóvel.

- Grande parte do trajecto foi assim. Que gozo !!!

- A natureza na Serra. Joaninha captada por Carlos Alves, durante a descida da serra.

Como última consideração: o meu canivete suiço foi sempre com a lâmina aberta, e colocado em posição de fácil e rápido acesso, por cima de um dos alforges. Com a mão direita conseguia chegar-lhe, mesmo em andamento. Uma precaução que, naturalmente, viria a revelar-se inútil, mas que acabou por ajudar a vencer alguns dos medos naturais que se sentem quando estamos sós, no meio da natureza, praticamente sem luz, como se fossemos cegos. Aqui, os outros sentidos estão em alerta máximo, e ao menor ruído, a adrenalina dispara para valores superiores ao normal.

DADOS TÉCNICOS para cálculo de emissões de CO2
Malas, sacos e alforges: 2, com um total de 12kg
Consumo de líquidos: 2 litros de água, de nascente natural

Outros modos de transporte utilizados: nenhum.
Duches: 1, de aprox.10 minutos

Peças de roupa lavada: 1 calções de ciclismo, 1 par de meias
Horas de utilização de computador: 3:00h
Visualizações do blogue: 400
Novos amigos no Facebook: 15

Carregamento de telemóvel e lanterna: Mala Solar com painéis fotovoltáicos

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS:
MOTOVEDRAS, pelo excelente equipamento que me cedeu.
DIMODA, pelos fatos da Pierre Cardin que me cedeu, para usar nas cidades.
JP SA COUTO, pelo excelente PC Magalhães 2 que ofereceu para esta viagem
OFF7, pelo cálculo e compensação de emissões de CO2.
Bio Future House, pelas malas com painés foto-voltáicos que me carregam o telemóve e a lanterna.
Instituto Geográfico do Exército, pela oferta dos mapas de estradas que me orientam.

Ao Ricardo Santos, pelo tecto por uma noite.
Ao Carlos Alves e ao Joel, por me apoiarem nesta aventura, e acompanharem na descida.

À Carolina, minha mãe, por todos os dias acender uma vela de azeite a Nossa Senhora de Fátima.

Paulo Guerra dos Santos
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